O peso do pássaro morto -Aline Bei

Já faz um tempinho que li este livro, mas não poderia deixar de comentar sobre ele aqui. Eu já tinha ouvido falar bastante sobre esse livro e a autora Aline Bei, pois ele foi vencedor do prêmio São Paulo de literatura. Com a difícil situação do mercado editorial no país, Aline entrou em contato comigo através do instagram me oferecendo a oportunidade de adquirir o livro autografado diretamente com ela e foi o que eu fiz…

Aline traz um texto poético, ao mesmo tempo em que é belo e delicado, é forte e impetuoso.

É uma história sobre perdas e de que forma nós permitimos ou não que essas perdas moldem a nossa vida, mas tem uma questão da mulher também que toca fundo no nosso âmago.

Li muitas resenhas sobre esse livro e penso que “o peso do pássaro morto” cabe em todas elas, acho lindo perceber que em cada impressão do leitor descubro algo novo que faz todo sentido na história. Abaixo, transcrevo para vocês a experiência que tive com o livro há alguns meses atrás e compartilhei no instagram tendo inclusive recebido um feedback da autora, que aliás é sempre muito simpática e que me deixou muito feliz…

De escrita diferente, dando a impressão de poesia, mas sendo prosa, é igualmente eficaz e impactante. O livro narra a história de uma personagem sem nome, o que nos remete ao anonimato, imposto por uma sociedade ainda muito longe de ser justa com as mulheres. Cheio de melancolia e emoção contida, as perdas vividas por essa mulher dos 8 aos 52 anos à transformaram no grande vazio que ela é agora…. Sutil e ao mesmo tempo forte e doloroso, me fez refletir em como é difícil ser mulher ainda hoje em nossa sociedade!

Se você ainda não leu, leia, garanto que será uma leitura muito agradável…

Aguardando ansiosa seus próximos livros…

Anúncios

Dias de abandono Elena Ferrante

Este foi o primeiro livro que eu li da Ferrante e fiquei impressionada com a força da sua narrativa.

Dias de abandono é um livro curto de 183 páginas, mas não se engane, apesar de rápido, ele é extremamente intenso e até pesado em alguns momentos. O livro conta a história de Olga, uma personagem muito bem construída que se vê completamente perdida, depois de ter sido abandonada com seus dois filhos e um cachorro pelo marido que a trocou pela filha de uma antiga amiga. Assim, passamos por toda a angústia vivida por Olga desde a ilusão de que essa decisão de Mário seu marido é passageira, o caos que beira a loucura até a realidade fincar-se diante de seus olhos, obrigando-a enxergar os fatos. Olga comete tantos atos insanos quanto é possível, desde transar com um vizinho à quem ela despreza até negligenciar a saúde do próprio filho. Sentimos vontade de mergulhar na história e “chacoalhar” a personagem, fazê-la acordar. Mas o que chama atenção na escrita da autora é a capacidade de transformar um acontecimento aparentemente comum e banal em algo grandioso, ela consegue traduzir os sentimentos mais íntimos da personagem com exatidão, algo até difícil de explicar, mas o leitor sente aquela atmosfera pesada e confesso que algumas vezes, tive que parar para respirar fundo e recuperar o fôlego. Outro fato importante do livro que deve ser citado, é a clara crítica feita em relação ao papel da mulher na sociedade e ao machismo não só italiano mas mundial que faz crer inclusive às próprias mulheres, que suas vidas só tem sentido enquanto existe um casamento e a figura do marido, sem a qual a vida da mulher perde a razão de ser. Isso fica claro em vários trechos da história, inclusive no final, quando a Olga começa  tomar consciência dos acontecimentos e aceita sair com uma amiga para se divertir, e esta amiga passa o tempo todo tentando lhe arrumar pretendentes, como se para ter uma vida novamente, ela necessitasse de um homem. Gosto muito da forma como essa “mulher” é tratada aqui na história, onde em momento algum, a autora tenta transformá-la numa heroína. Portanto não esperem  um “ grand finale” da mulher traída que deu a volta por cima, aqui somos apresentados à mulher comum, do cotidiano, com toda sua humanidade e imperfeição mas igualmente bela e real.

Editora Biblioteca azul

Este exemplar eu comprei na Amazon em março e paguei mais ou menos R$ 22,00 + frete.

O conto da Aia

Olá Pessoal, como estão!?

Sei que já existem muitas resenhas e vídeos sobre esse livro, mas eu terminei de ler agora (atrasadinha) e não podia deixar de comentar sobre ele. Esta história é tão complexa, perturbadora e assustadoramente próxima da nossa realidade atual que é difícil escolher as palavras corretas.

Trata-se de uma distopia escrita por Margareth Atwood em 1985, mais voltou a ficar em alta recentemente, devido ao sucesso da série The Handmaid’s Tale exibida pelo canal Streaming Hulu.

A história se passa num futuro próximo, após um golpe de estado, os Estados unidos passam a se chamar República de Gilead e o grupo que toma o poder o transforma num governo teocrático e totalitário e as leis que regem esse governo fundamentalista é feita através de uma leitura bem severa do Cristianismo e as maiores vítimas desta ditadura são as mulheres. Após desastres naturais, doenças sexualmente transmissíveis e armas químicas, um alto índice de infertilidade é notado no mundo e é nesse cenário que se encaixam as mulheres, à elas é negado todo e qualquer direito. Elas são divididas em grupos, as Marthas que são inférteis e cuidam do serviços da casa, as Aias que são as mais novas e férteis cuja função é procriar e servir ao seu comandante, as esposas dos comandantes e as econoesposas esposas dos homens menos poderosos, as tias são mulheres mais velhas, responsáveis pela lavagem cerebral feita nas Aias.

A história nos é contada sob a visão de uma das Aias Offred, seu nome verdadeiro em apenas um momento nos fazem entender que é June, mas isso não é confirmado nem pela própria autora. Offred que quer dizer “do Fred” significa que ela é propriedade do comandante Fred. Então resumindo, Offred é submetida entre tantas coisas absurdas a sucessivos estupros aos quais chamam de cerimônia, aí ela deve engravidar, dar a sua filha à esposa do comandante e assim será enviada a outro comandante, esta é a sua função. Entre flashbacks de passado e presente ela nos conta como era sua vida antes do golpe, ela era casada com Luke, trabalhava fora, tinha uma filha e uma amiga chamada Moira que ela acaba encontrando mais tarde, no entanto ela desconhece o destino do marido e da filha. Um belo dia, ela é dispensada do serviço, não consegue mais movimentar sua conta bancária e numa tentativa de fuga é capturada, separada da família e levada a viver na casa do comandante. Sem qualquer opção de escolha, nem mesmo para comer ou vestir e sob forte pressão para engravidar no prazo, ela vai nos revelando seu dia a dia. Dentro deste contexto passamos com Offred, pelas situações mais bizarras, chocantes e absurdas que se possa imaginar. Confesso que a única coisa que me deixou um pouco angustiada, é que somente lá pela página 200, é que nos é explicado o que aconteceu que a levou a viver naquela situação, pois até então só sabemos o que acontece no presente e que antes a vida dela não era assim. Para mim que sou uma pessoa que gosta de respostas, isso incomodou um pouco, cheguei até a voltar algumas páginas para ter certeza que não tinha perdido o momento em que ela relata o golpe e etc… Mas isso não chega a ser um problema. O livro nos faz refletir sobre muitas questões, é forte, incômodo, inquietante, faz crítica a cultura do estupro, as justificativas religiosas para os mais diversos fins, nos faz pensar em como a mulher sempre foi e ainda é oprimida e hostilizada, o domínio masculino, a maneira como isto está enraizado na nossa sociedade e como a  gente de certa forma até se habituou a viver assim, de como este sistema interfere até mesmo nos relacionamentos femininos obrigando mesmo que ivoluntariamente uma mulher enxergar a outra sempre como sua oponente, além da crítica a esses governos. Um belo tapa na cara. O final não é exatamente um término. Por isso é muito importante que você leia a parte final chamada “nota histórica”, ali você encontrará muitas respostas e note que mesmo com tudo que lhe será dito, agora por um historiador que tem acesso muito tempo depois a fitas gravadas por Offred, em alguns momentos ele sutilmente tentará descredibilizar a história dela, pelo simples fato de ter sido relatada por uma mulher, fazendo valer tudo o que a escritora colocou em pauta no livro.

Este livro vale muito a leitura, muito!

Editora Rocco

The Handmaid’s Tale

aias 2