Dias de abandono Elena Ferrante

Este foi o primeiro livro que eu li da Ferrante e fiquei impressionada com a força da sua narrativa.

Dias de abandono é um livro curto de 183 páginas, mas não se engane, apesar de rápido, ele é extremamente intenso e até pesado em alguns momentos. O livro conta a história de Olga, uma personagem muito bem construída que se vê completamente perdida, depois de ter sido abandonada com seus dois filhos e um cachorro pelo marido que a trocou pela filha de uma antiga amiga. Assim, passamos por toda a angústia vivida por Olga desde a ilusão de que essa decisão de Mário seu marido é passageira, o caos que beira a loucura até a realidade fincar-se diante de seus olhos, obrigando-a enxergar os fatos. Olga comete tantos atos insanos quanto é possível, desde transar com um vizinho à quem ela despreza até negligenciar a saúde do próprio filho. Sentimos vontade de mergulhar na história e “chacoalhar” a personagem, fazê-la acordar. Mas o que chama atenção na escrita da autora é a capacidade de transformar um acontecimento aparentemente comum e banal em algo grandioso, ela consegue traduzir os sentimentos mais íntimos da personagem com exatidão, algo até difícil de explicar, mas o leitor sente aquela atmosfera pesada e confesso que algumas vezes, tive que parar para respirar fundo e recuperar o fôlego. Outro fato importante do livro que deve ser citado, é a clara crítica feita em relação ao papel da mulher na sociedade e ao machismo não só italiano mas mundial que faz crer inclusive às próprias mulheres, que suas vidas só tem sentido enquanto existe um casamento e a figura do marido, sem a qual a vida da mulher perde a razão de ser. Isso fica claro em vários trechos da história, inclusive no final, quando a Olga começa  tomar consciência dos acontecimentos e aceita sair com uma amiga para se divertir, e esta amiga passa o tempo todo tentando lhe arrumar pretendentes, como se para ter uma vida novamente, ela necessitasse de um homem. Gosto muito da forma como essa “mulher” é tratada aqui na história, onde em momento algum, a autora tenta transformá-la numa heroína. Portanto não esperem  um “ grand finale” da mulher traída que deu a volta por cima, aqui somos apresentados à mulher comum, do cotidiano, com toda sua humanidade e imperfeição mas igualmente bela e real.

Editora Biblioteca azul

Este exemplar eu comprei na Amazon em março e paguei mais ou menos R$ 22,00 + frete.

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O conto da Aia

Olá Pessoal, como estão!?

Sei que já existem muitas resenhas e vídeos sobre esse livro, mas eu terminei de ler agora (atrasadinha) e não podia deixar de comentar sobre ele. Esta história é tão complexa, perturbadora e assustadoramente próxima da nossa realidade atual que é difícil escolher as palavras corretas.

Trata-se de uma distopia escrita por Margareth Atwood em 1985, mais voltou a ficar em alta recentemente, devido ao sucesso da série The Handmaid’s Tale exibida pelo canal Streaming Hulu.

A história se passa num futuro próximo, após um golpe de estado, os Estados unidos passam a se chamar República de Gilead e o grupo que toma o poder o transforma num governo teocrático e totalitário e as leis que regem esse governo fundamentalista é feita através de uma leitura bem severa do Cristianismo e as maiores vítimas desta ditadura são as mulheres. Após desastres naturais, doenças sexualmente transmissíveis e armas químicas, um alto índice de infertilidade é notado no mundo e é nesse cenário que se encaixam as mulheres, à elas é negado todo e qualquer direito. Elas são divididas em grupos, as Marthas que são inférteis e cuidam do serviços da casa, as Aias que são as mais novas e férteis cuja função é procriar e servir ao seu comandante, as esposas dos comandantes e as econoesposas esposas dos homens menos poderosos, as tias são mulheres mais velhas, responsáveis pela lavagem cerebral feita nas Aias.

A história nos é contada sob a visão de uma das Aias Offred, seu nome verdadeiro em apenas um momento nos fazem entender que é June, mas isso não é confirmado nem pela própria autora. Offred que quer dizer “do Fred” significa que ela é propriedade do comandante Fred. Então resumindo, Offred é submetida entre tantas coisas absurdas a sucessivos estupros aos quais chamam de cerimônia, aí ela deve engravidar, dar a sua filha à esposa do comandante e assim será enviada a outro comandante, esta é a sua função. Entre flashbacks de passado e presente ela nos conta como era sua vida antes do golpe, ela era casada com Luke, trabalhava fora, tinha uma filha e uma amiga chamada Moira que ela acaba encontrando mais tarde, no entanto ela desconhece o destino do marido e da filha. Um belo dia, ela é dispensada do serviço, não consegue mais movimentar sua conta bancária e numa tentativa de fuga é capturada, separada da família e levada a viver na casa do comandante. Sem qualquer opção de escolha, nem mesmo para comer ou vestir e sob forte pressão para engravidar no prazo, ela vai nos revelando seu dia a dia. Dentro deste contexto passamos com Offred, pelas situações mais bizarras, chocantes e absurdas que se possa imaginar. Confesso que a única coisa que me deixou um pouco angustiada, é que somente lá pela página 200, é que nos é explicado o que aconteceu que a levou a viver naquela situação, pois até então só sabemos o que acontece no presente e que antes a vida dela não era assim. Para mim que sou uma pessoa que gosta de respostas, isso incomodou um pouco, cheguei até a voltar algumas páginas para ter certeza que não tinha perdido o momento em que ela relata o golpe e etc… Mas isso não chega a ser um problema. O livro nos faz refletir sobre muitas questões, é forte, incômodo, inquietante, faz crítica a cultura do estupro, as justificativas religiosas para os mais diversos fins, nos faz pensar em como a mulher sempre foi e ainda é oprimida e hostilizada, o domínio masculino, a maneira como isto está enraizado na nossa sociedade e como a  gente de certa forma até se habituou a viver assim, de como este sistema interfere até mesmo nos relacionamentos femininos obrigando mesmo que ivoluntariamente uma mulher enxergar a outra sempre como sua oponente, além da crítica a esses governos. Um belo tapa na cara. O final não é exatamente um término. Por isso é muito importante que você leia a parte final chamada “nota histórica”, ali você encontrará muitas respostas e note que mesmo com tudo que lhe será dito, agora por um historiador que tem acesso muito tempo depois a fitas gravadas por Offred, em alguns momentos ele sutilmente tentará descredibilizar a história dela, pelo simples fato de ter sido relatada por uma mulher, fazendo valer tudo o que a escritora colocou em pauta no livro.

Este livro vale muito a leitura, muito!

Editora Rocco

The Handmaid’s Tale

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