A morte de Ivan ilitch / Tolstói

Esse foi o primeiro livro de literatura russa que eu li, e cara, vou falar: que livro maravilhoso! Posso dizer que foi com esse livro que senti aquele famoso soco no estômago da literatura.

A história é super curtinha e a linguagem não é difícil, o mais complicado são os nomes russos, rs… Apesar de ser uma novela curta, é tão profundo, te toca tão fundo na alma, que é difícil explicar e conseguir passar o que é realmente esta obra.

O livro começa contando a história de Ivan Ilitch, um juiz respeitado de família aristocrata do século XIX, que morre ainda no primeiro capítulo. (Isso não é spoiler, tá… Está na sinopse e no próprio título). E seus colegas de trabalho e carteado recebem a notícia com certa aflição, não pela morte, mas pelas promoções que surgirão para esses e seus parentes com a morte de Ivan Ilitch. Então voltamos no tempo, onde temos acesso à todos os acontecimentos de sua vida até então. E como toda pessoa a beira da morte, Ivan Ilitch faz uma reflexão de toda a sua vida e busca um sentido para ela, mas de uma forma genial, ele faz críticas não só a aristocracia e burguesia russa da época, mas da vida que nos é imposta pela sociedade e acatamos como sendo o correto. Uma vida muitas vezes, regada à superficialidade, um bom emprego, um bom casamento, filhos e ele se descobre totalmente infeliz e solitário no meio de tudo isso, e até culpa de certa forma a família por essa infelicidade. Família essa, que não lhe dá a devida atenção e preocupa-se mais em como sobreviver sem o salário dele, sentindo-se em paz com a própria consciência. Ele só consegue se sentir à vontade com seu empregado Gerassim, o único que se mostra realmente sincero com ele, pois esse não preocupa-se com a opinião da sociedade. Ivan descobre que tudo o que viveu até agora foi uma grande mentira e só consegue enxergar algum sentido para sua vida na fase da infância e nesse momento agora da sua morte que ele acredita estar vivendo de verdade. Nesses momentos, através de acontecimentos banais, somos expostos à toda miséria do ser humano, ele questiona nossa incapacidade de se compadecer do sofrimento alheio, com gestos simples ele nos evidencia que quando o fazemos é falso ou por obrigação.

Nos seus últimos momentos, ele ainda afirma que a terrível dor física que sente não é nada perto da dor moral de ter vivido uma vida de mentira tão difícil de admitir para si próprio. Então ele se confessa com um padre, o que lhe causa certo alívio e através de um gesto de amor de seu filho de 14 anos ele aceita que talvez possa ser perdoado. E aí segue a cena de morte mais bem escrita e comovente de toda a literatura, pelo menos da literatura conhecida por mim.

A vocês que leram, peço desculpas se essa resenha se torna rasa, diante da grandiosidade desta obra, me esforcei para tentar expressar para vocês pelo menos 1/3 do que esta história causou em mim.

Como dizem as notas do tradutor: “Todos saímos deste livro, um pouco mais inteligentes e humanizados”.

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Tudo aquilo que eu não disse /Kathryn Hughes

Entre um capítulo e outro intercalam-se as histórias de duas mulheres que em algum momento irão se cruzar.

Christina Craig (Tina) é uma jovem que vive um relacionamento abusivo nos anos 70, e luta constantemente entre seu amor próprio e o amor que sente por seu marido Rick. Ela sabe que não pode mais viver assim e apesar dos conselhos de seus amigos Graham e Linda, ela ama o marido e acredita que ele deixando de beber, tudo ficará bem entre eles. Tina, tem uma loja de roupas beneficente e um dia encontra no bolso de um paletó uma carta que sem querer, mudará sua vida. A carta estava endereçada a uma outra Christina e tinha sido escrita há 35 anos, mas embora lacrada e selada nunca havia sido postada, um dia Tina acaba lendo a carta e decide que vai procurar esta Christina e dar à ela o direito de ler esta carta escrita por Billy e que nunca foi entregue. E então vamos conhecer a história de Chrissie (Christina). Aqui a autora aborda um tema bem clichê que é a garota de “boa família” que se apaixona pelo rapaz humilde, isso não agrada ao pai dela que tenta a todo custo separá-los. No entanto, a história toda é muito bem construída, a maneira que autora explora esses temas aparentemente batidos nos faz refletir, até que ponto temos o direito de decidir o que é melhor para o outro, mesmo quando é alguém da família e as intenções são as melhores possíveis!? Todo mundo tem o direito de saber a verdade, não importa a situação, ou ainda, uma simples frase não dita pode mudar muitas vidas… Estas são grandes questões enfrentadas pelos protagonistas da história. Fiquei um bom tempo com essa história na cabeça, por pensar em como a vida da Chrissie poderia ter sido diferente se ela soubesse a verdade, a leitura flui muito bem, tem muitos acontecimentos. A única coisa que achei chatinha é a diagramação usada pela editora Astral Cultural, um pouco cansativa. E também tem uma questão entre Chrissie e Jackie que eu achei que poderia ter sido melhor trabalhada, não vou dizer aqui para não dar spoiler, mas quem quiser e já tiver lido, posso comentar em “off”. No geral gostei do livro e a história me agradou bastante, com certeza me interessarei em ler outros livros da autora.

Indico para quem está afim de ler um romancinho água com açúcar mas bem escrito.

A improvável jornada de Harold Fry

Oi Gente! Primeiramente quero dar a maravilhosa notícia que agora temos um canal no youtube também , se increvam, deem as suas opiniões, sejam bem vindos! Vejo vocês por lá… Bjs…

http://www.youtube.com/channel/UCtnSFwFGX1bEV2_QTXo3yzA

Vamos a História!

Este livro conta a história de Harold Fry, um senhor de mais ou menos 65 anos de idade,casado com a Maureen,com quem ele não se dá muito bem, leva uma vida pacata, sedentária, numa cidadezinha da Inglaterra, aposentado é uma dessas pessoas que param de trabalhar e ficam em casa esperando a morte chegar. Um belo dia, ele recebe uma carta de uma antiga amiga, Queenie Hennessy, com quem ele havia trabalhado há muito tempo atrás e de quem ele já tinha sido bem próximo, na carta ela diz que está com câncer terminal e que vive numa casa de repouso. Então esta carta, deixa Harold muito abalado e ele decide escrever uma carta em resposta, no entanto quando ele sai para colocar a carta na caixa do correio, ele passa por várias caixas e não consegue postar a carta, ele simplesmente está caminhando tão pensativo, tão imerso em seus próprios pensamentos, que ele não consegue parar. Quando finalmente fica faminto e decide parar para comer alguma coisa num posto, encontra uma funcionária muito simpática com quem ele começa a conversar e conta parte da sua história e também sobre a carta e ela o encoraja a entregar a carta pessoalmente, dizendo que a tia dela também teve câncer, mas se a gente fé, a gente pode fazer qualquer coisa. Embora ele não fosse uma pessoa religiosa, aquelas palavras ficam na cabeça dele e ele passa a acreditar eu enquanto ele estiver caminhando sua amiga se manterá viva esperando por ele. Ele até escreve um cartão postal onde diz “Estou a caminho. Você só precisa esperar. Porque eu vou salvá-la, entendeu? Eu vou continuar caminhando e você precisa continuar viva.” É uma atitude bonita, comove muita gente pelo caminho, mas o leitor fica meio sem entender porque uma pessoa na situação dele, idoso, sem nenhum preparo físico, sem roupas e calçados adequados, celular, sem nada, ele saiu de casa apenas com a roupa do corpo e carteira no bolso, se disporia a andar mais de 800km do sul ao norte da Inglaterra por uma pessoa que ele se quer vê há décadas. Mas a medida que a história se desenrola e autora vai descrevendo toda a caminhada do Harold, nós vamos compreendendo que apesar de ele “achar que vai salvar a amiga”, existe um motivo muito maior por trás de tudo isso, não só em relação a Queenie mas em relação a sua própria vida, pois ele faz uma viagem de autoconhecimento, durante todo o trajeto ele revisita vários momentos da vida dele, desde a infância, a relação com os pais, a relação com a esposa Maureen, com o filho David com quem ele tem uma relação super conturbada e ver essa transformação que ele vive acontecer,é muito bonito. Na realidade ele queria dar sentido à vida dele, ter a sensação de que pelo menos uma vez na vida fez algo grandioso, algo de que ele pudesse se orgulhar… E essa idéia de sentir vontade de fazer alguma coisa, por mais louca que seja essa coisa, e ter a coragem de ir lá e fazer, simplesmente fazer sem se importar com nada nem ninguém, eu acho fantástico. Quando ele termina a caminhada, ele é uma outra pessoa, com outra visão de mundo. A história tem um final bem surpreendente também, é um livro que fala sobre as relações humanas, sobre a vida, sobre a velhice. Então você vai ter um misto de sensações, em alguns momentos você irá se emocionar, outros são bem angustiantes e outros ainda, acho que pela exagerada descrição de tudo que ele vê pelo caminho tornam a leitura um tanto arrastada, mas ainda assim é uma boa história. Um outro ponto citado por muitas pessoas como um ponto negativo do livro, é que ele traz uma visão pessimista em relação ao câncer, porque na página 220 num diálogo entre a Maureen e a moça do posto é dito “quando o câncer pega a pessoa, não tem jeito”, mas se a gente levar em consideração que maioria dos livros e filmes que falam de câncer tem essa mesma visão pessimista, eu não sei se esse seria um problema específico deste livro. Mas eu concordo que é uma visão pessimista,   como se toda pessoa com câncer estivesse fadada à morte e não é verdade. O ano passado eu tive câncer de mama e não morri, estou aqui curada, saudável e não pretendo morrer tão cedo, rs.

Com todos os prós e os contras, acho que vale a leitura pela reflexão que trás sobre a vida.

 

Por lugares incríveis

Esta é a história de Violet Markey e Theodore Finch ou parte dela.

 

Violet tinha uma vida perfeita, era linda, popular, tinha muitos amigos e um namorado incrível. Adorava escrever e tinha uma revista on-line com sua irmã Eleanor, era feliz e cheia de planos, mas tudo muda quando Violet e Eleanor sofrem um acidente de carro e Eleanor morre. Violet sente-se culpada pela morte da irmã, pára de escrever, e vive agora isolada tentando achar um motivo para continuar vivendo.

Já Theodore Finch é o contrário, ele é conhecido como o garoto problema da escola, seu apelido é aberração, tem um pai violento, uma família distante e luta com momentos depressivos. Violet conta os dias para a formatura quando pretende ir para nova York estudar e Finch pesquisa várias formas de suicídio. Numa de suas inúmeras tentativas de suicídio ele vai para o alto da torre do sino da escola e lá encontra Violet com a mesma intenção, mas ela desiste e não está conseguindo sair dali, então Finch a salva e a ajuda sair lá de cima, no entanto eles combinam de dizer que foi Violet quem salvou Finch, afinal ele já é mesmo o garoto problema e isso vai facilitar as coisas para Violet.

Os capítulos do livro são narrados por Violet e Finch alternadamente, assim temos a visão de ambos da história. Depois deste dia Finch começa a prestar mais atenção em Violet e meio que forçadamente eles irão fazer um trabalho de geografia juntos e irão visitar lugares incríveis de Indiana, estado onde vivem. Achei muito bacana que no final do livro tem um mapa com todos os lugares por onde eles passaram e todos aqueles lugares mágicos existem de verdade. Nessas andanças como eles dizem, eles encontram um no outro muito mais que um amigo e Violet começa a “viver” novamente e percebe que o Finch como na maioria das vezes na vida real, não é nem de longe aquilo que seus amigos da escola dizem.

O livro trata questões sérias como o suicídio, bullying, transtorno bipolar e como muitos jovem são nigligenciados pela família e pela sociedade de uma forma geral, mas a história nos é contada de forma tão sutil que embora haja tristeza nesses temas, é uma leitura leve, agradável, não queremos largar o livro. Tem muitas passagens bonitas que nos fazem refletir como por exemplo esta frase dita por Violet, “nem sempre podemos enxergar o que os outros não querem que a gente veja. Principalmente, quando se esforçam tanto para esconder.”

Não vou dizer muito mais sobre a história, pois sei que já ouviram falar muito deste livro e não quero dar spoiler e estragar a leitura de quem ainda não conhece.

Embora o final seja um tanto previsível, não deixa de surpreender. Li o último capítulo tensa, imaginando o que ia acontecer mas não querendo acreditar. Chorei, mas é uma história muito querida, todo mundo deve ler e tentar nem que seja por um momento, antes de qualquer julgamento vestir a pele do outro.

 

E vamos nos conscientizar que bullying não é legal, brincadeira é quando as duas partes se divertem, isso pode acarretar sérios problemas para a vida da pessoa. Na dúvida, não façamos com os outros aquilo que não gostaríamos que fizessem conosco!

Tel: CVV (Prevenção ao suicídio) 188

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Uma curva no tempo / Dani Atkins

Este livro foi uma grata surpresa, pois não é o tipo de livro que costuma me chamar a atenção, mas depois de ver alguns vídeos de booktubers, acabei ficando curiosa e gostando muito.

 

A história se passa em setembro de 2008 na cidade de Great Bishopsford, Rachel Wiltshire e seus amigos vão para a faculdade em diferentes lugares e portanto se separarem, então se reúnem num restaurante para a despedida. Porém durante o jantar,um carro desgovernado quebra a vidraça e invade o restaurante atingindo a mesa onde estavam. Rachel só conseguiu se safar pois seu amigo Jimmy acaba morrendo para salvá-la. Passam-se cinco anos e Rachel ainda guarda seqüelas físicas e emocionais, ela se culpa pela morte de Jimmy, ficou com uma grande cicatriz no rosto que ela esconde com o cabelo, sente fortes dores de cabeça, vive isolada e sua vida é completamente diferente do que ela planejara, nem a faculdade de jornalismo que era seu sonho ela fez. Agora eles estão prestes a se reencontrar num jantar que vai acontecer antes do casamento de Sarah, sua melhor amiga. Rachel só aceita ir mesmo porque sabe que Sarah faz questão de sua presença, mas acaba ficando ansiosa para reencontrar todos inclusive Matt seu antigo namorado, que acaba confessando a ela nesse jantar que nunca à esqueceu mesmo estando com outra pessoa. Já faz algum tempo que Rachel está adiando as consultas médicas para realizar novos exames devido as dores de cabeça em decorrência do acidente. No dia em que volta do jantar, ela resolve encarar os fatos e vai pela primeira vez visitar o túmulo de Jimmy, mas ela acaba passando mal e desmaiando no cemitério. Quando acorda está no hospital,   e fica sem entender nada, pois seu pai que estava com câncer e muito abatido, parecia curado, Jimmy está vivo e ela agora é noiva de Matt, trabalha como jornalista e tem um emprego conceituado. Então ela tenta a todo custo convencer a todos que aquilo não pode ser verdade, que sua realidade era outra bem diferente e os médicos à   diagnosticam com amnésia. E agente vai especulando para saber o que de fato aconteceu.

 

A escrita de Dani Atkins é muito gostosa e se for curioso (a), vai ler o livro facilmente em um dia. O final é um tanto óbvio, mas a história é tão bem escrita e envolvente que em momento algum pensei nesse desfecho. É emocionante e muito bonito.

Fiquei curiosa para ler outros livros da autora.

 

A capa é linda soft touch, da editora Arqueiro.

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Entre quatro paredes / B. A. Paris

Li este livro depois de algumas resenhas que assisti em canais do youtube e confesso que há tempos não lia um thriller como esse, que me deixou literalmente sem fôlego, comecei na sexta e terminei na segunda, mas se você estiver com tempo livre, você lê fácil em um dia.

Jack Angel e Grace tem o relacionamento perfeito, eles dividem tudo, até o celular e a conta de e-mail, eles se conheceram e em seis meses, estavam casados. Eles moram numa mansão maravilhosa, Jack é um grande advogado especialista em defesas de violências contra mulheres, lindo, charmoso, gentil e bem sucedido é o sonho de toda mulher e os homens o invejam. Quando promovem jantares em casa, os amigos admiram a cumplicidade deles e também o talento de Grace na cozinha. Ela tem uma irmã, Millie que tem síndrome de Down e como foi rejeitada pelos pais quando nasceu, Grace que a adora, ficou como sua tutora e em breve pretende levá-la para morar com eles, já que devido ao trabalho de Grace antes do casamento, Millie vive em um internato. Porém, tanta perfeição não passa de uma grande farsa, (não é spoiler heim, isso já está escrito na capa do livro). Logo no começo já percebemos o que tem de errado ali e o porque disso acontecer. A história é narrada em primeira pessoa por Grace e os capítulos se alternam entre presente e passado, o que deixa a leitura ainda mais interessante.

A partir do momento em que compreendemos a situação bizarra daquele casal, é que começamos a torcer para uma coisa e outra acontecer e ficamos curiosos para saber como aquela situação aparentemente sem saída vai se desenrolar. É um livro pesado, que nos deixa tensos, mas é muito bem escrito, uma leitura muito prazerosa, difícil querer largar, e o final na minha opinião é sensacional, não deixa nem um pouco a desejar em relação ao resto do livro. Com certeza já entrou para a minha lista de preferidos.

Editora Record

Isto é água

David Foster Wallace foi um reconhecido e premiado escritor americano, responsável por sucessos como “A vassoura do sistema, O rei pálido, Graça infinita”entre outros. Ele sofria de depressão e se suicidou aos 46 anos em 2008. Ainda não tive a oportunidade de ler nenhum de seus livros ( o que farei em beve), mas há pouco tempo fiquei sabendo pelo jornalista e escritor Xico Sá da existência de um discurso feito por David na cerimônia de formatura de um curso de artes nos Estados Unidos, anos antes de sua morte. E o que ele diz nesse discurso é simplesmente fantástico, não serve apenas para um jovem formando mas para qualquer pessoa que possua a aspiração de uma vida mais saudável mentalmente falando. O texto é um pouco longo, mas é ótimo e tenho certeza que em algum parágrafo ele vai se encaixar perfeitamente na sua vida. Sei que muitas pessoas nem vão dar atenção para isso e talvez o mundo não se torne melhor ou mais justo por conta desse discurso, mas se você ler e conseguir compreender a essência do que o David Foster Wallace diz, eu acredito muito que o seu mundo já ficará bem melhor. Por isso, senti que eu tinha que levar esse discurso ao maior número de pessoas possível, então decidi publicar aqui nesse pequeno espaço, mas se eu conseguir fazer uma pessoa que seja ler, já vou ficar feliz. Esse texto já foi publicado também pela revista Piauí (é o que lerão aqui) e me parece que agora Daniel Galera está traduzindo uma versão para a Companhia das letras.Vocês também podem ver mais sobre o assunto no ótimo “discreto blog da burguesia”.

Abaixo o texto e no final o link do discurso no youtube com a voz dele mesmo, só imagens reais do discurso é que não encontrei em nenhum vídeo.

Dois peixinhos estão nadando juntos e cruzam com um peixe mais velho, nadando em sentido contrário. Ele os cumprimenta e diz:

– Bom dia, meninos. Como está a água?

Os dois peixinhos nadam mais um pouco, até que um deles olha para o outro e pergunta:

– Água? Que diabo é isso?

Não se preocupem, não pretendo me apresentar a vocês como o peixe mais velho e sábio que explica o que é água ao peixe mais novo. Não sou um peixe velho e sábio. O ponto central da história dos peixes é que a realidade mais óbvia, ubíqua e vital costuma ser a mais difícil de ser reconhecida. Enunciada dessa forma, a frase soa como uma platitude – mas é fato que, nas trincheiras do dia-a-dia da existência adulta, lugares comuns banais podem adquirir uma importância de vida ou morte.

Boa parte das certezas que carrego comigo acabam se revelando totalmente equivocadas e ilusórias. Vou dar como exemplo uma de minhas convicções automáticas: tudo à minha volta respalda a crença profunda de que eu sou o centro absoluto do universo, de que sou a pessoa mais real, mais vital e essencial a viver hoje. Raramente mencionamos esse egocentrismo natural e básico, pois parece socialmente repulsivo, mas no fundo ele é familiar a todos nós. Ele faz parte de nossa configuração padrão, vem impresso em nossos circuitos ao nascermos.

Querem ver? Todas as experiências pelas quais vocês passaram tiveram, sempre, um ponto central absoluto: vocês mesmos. O mundo que se apresenta para ser experimentado está diante de vocês, ou atrás, à esquerda ou à direita, na sua tevê, no seu monitor, ou onde for. Os pensamentos e sentimentos dos outros precisam achar um caminho para serem captados, enquanto o que vocês sentem e pensam é imediato, urgente, real. Não pensem que estou me preparando para fazer um sermão sobre compaixão, desprendimento ou outras “virtudes”. Essa não é uma questão de virtude – trata-se de optar por tentar alterar minha configuração padrão original, impressa nos meus circuitos. Significa optar por me libertar desse egocentrismo profundo e literal que me faz ver e interpretar absolutamente tudo pelas lentes do meu ser.

Num ambiente de excelência acadêmica, cabe a pergunta: quanto do esforço em adequar a nossa configuração padrão exige de sabedoria ou de intelecto? A pergunta é capciosa. O risco maior de uma formação acadêmica – pelo menos no meu caso – é que ela reforça a tendência a intelectualizar demais as questões, a se perder em argumentos abstratos, em vez de simplesmente prestar atenção ao que está ocorrendo bem na minha frente.

Estou certo de que vocês já perceberam o quanto é difícil permanecer alerta e atento, em vez de hipnotizado pelo constante monólogo que travamos em nossas cabeças. Só vinte anos depois da minha formatura vim a entender que o surrado clichê de “ensinar os alunos como pensar” é, na verdade, uma simplificação de uma idéia bem mais profunda e séria. “Aprender a pensar” significa aprender como exercer algum controle sobre como e o que cada um pensa. Significa ter plena consciência do que escolher como alvo de atenção e pensamento. Se vocês não conseguirem fazer esse tipo de escolha na vida adulta, estarão totalmente à deriva.

Lembrem o velho clichê: “A mente é um excelente servo, mas um senhorio terrível.” Como tantos clichês, também esse soa inconvincente e sem graça. Mas ele expressa uma grande e terrível verdade. Não é coincidência que adultos que se suicidam com armas de fogo quase sempre o façam com um tiro na cabeça. Só que, no fundo, a maioria desses suicidas já estava morta muito antes de apertar o gatilho. Acredito que a essência de uma educação na área de humanas, eliminadas todas as bobagens e patacoadas que vêm junto, deveria contemplar o seguinte ensinamento: como percorrer uma confortável, próspera e respeitável vida adulta sem já estar morto, inconsciente, escravizado pela nossa configuração padrão – a de sermos singularmente, completamente, imperialmente sós.

Isso também parece outra hipérbole, mais uma abstração oca. Sejamos concretos então. O fato cru é que vocês, graduandos, ainda não têm a mais vaga idéia do significado real do que seja viver um dia após o outro. Existem grandes nacos da vida adulta sobre os quais ninguém fala em discursos de formatura. Um desses nacos envolve tédio, rotina e frustração mesquinha.

 

Vou dar um exemplo prosaico imaginando um dia qualquer do futuro. Você acordou de manhã, foi para seu prestigiado emprego, suou a camisa por nove ou dez horas e, ao final do dia, está cansado, estressado, e tudo que deseja é chegar em casa, comer um bom prato de comida, talvez relaxar por umas horas, e depois ir para cama, porque terá de acordar cedo e fazer tudo de novo. Mas aí lembra que não tem comida na geladeira. Você não teve tempo de fazer compras naquela semana, e agora precisa entrar no carro e ir ao supermercado. Nesse final de dia, o trânsito está uma lástima.

Quando você finalmente chega lá, o supermercado está lotado, horrivelmente iluminado com lâmpadas fluorescentes e impregnado de uma música ambiente de matar. É o último lugar do mundo onde você gostaria de estar, mas não dá para entrar e sair rapidinho: é preciso percorrer todos aqueles corredores superiluminados para encontrar o que procura, e manobrar seu carrinho de compras de rodinhas emperradas entre todas aquelas outras pessoas cansadas e apressadas com seus próprios carrinhos de compras. E, claro, há também aqueles idosos que não saem da frente, e as pessoas desnorteadas, e os adolescentes hiperativos que bloqueiam o corredor, e você tem que ranger os dentes, tentar ser educado, e pedir licença para que o deixem passar. Por fim, com todos os suprimentos no carrinho, percebe que, como não há caixas suficientes funcionando, a fila é imensa, o que é absurdo e irritante, mas você não pode descarregar toda a fúria na pobre da caixa que está à beira de um ataque de nervos.

De qualquer modo, você acaba chegando à caixa, paga por sua comida e espera até que o cheque ou o cartão seja autenticado pela máquina, e depois ouve um “boa noite, volte sempre” numa voz que tem o som absoluto da morte. Na volta para casa, o trânsito está lento, pesado etc. e tal.

É num momento corriqueiro e desprezível como esse que emerge a questão fundamental da escolha. O engarrafamento, os corredores lotados e as longas filas no supermercado me dão tempo de pensar. Se eu não tomar uma decisão consciente sobre como pensar a situação, ficarei irritado cada vez que for comprar comida, porque minha configuração padrão me leva a pensar que situações assim dizem respeito a mim, a minha fome, minha fadiga, meu desejo de chegar logo em casa. Parecerá sempre que as outras pessoas não passam de estorvos. E quem são elas, aliás? Quão repulsiva é a maioria, quão bovinas, e inexpressivas e desumanas parecem ser as da fila da caixa, quão enervantes e rudes as que falam alto nos celulares.

Também posso passar o tempo no congestionamento zangado e indignado com todas essas vans, e utilitários e caminhões enormes e estúpidos, bloqueando as pistas, queimando seus imensos tanques de gasolina, egoístas e perdulários. Posso me aborrecer com os adesivos patrióticos ou religiosos, que sempre parecem estar nos automóveis mais potentes, dirigidos pelos motoristas mais feios, desatenciosos e agressivos, que costumam falar no celular enquanto fecham os outros, só para avançar uns 20 metros idiotas no engarrafamento. Ou posso me deter sobre como os filhos dos nossos filhos nos desprezarão por desperdiçarmos todo o combustível do futuro, e provavelmente estragarmos o clima, e quão mal-acostumados e estúpidos e repugnantes todos nós somos, e como tudo isso é simplesmente pavoroso etc. e tal.

Se opto conscientemente por seguir essa linha de pensamento, ótimo, muitos de nós somos assim – só que pensar dessa maneira tende a ser tão automático que sequer precisa ser uma opção. Ela deriva da minha configuração padrão.

Mas existem outras formas de pensar. Posso, por exemplo, me forçar a aceitar a possibilidade de que os outros na fila do supermercado estão tão entediados e frustrados quanto eu, e, no cômputo geral, algumas dessas pessoas provavelmente têm vidas bem mais difíceis, tediosas ou dolorosas do que eu.

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Fazer isso é difícil, requer força de vontade e empenho mental. Se vocês forem como eu, alguns dias não conseguirão fazê-lo, ou simplesmente não estarão a fim. Mas, na maioria dos dias, se estiverem atentos o bastante para escolher, poderão preferir olhar melhor para essa mulher gorducha, inexpressiva e estressada que acabou de berrar com a filhinha na fila da caixa. Talvez ela não seja habitualmente assim. Talvez ela tenha passado as três últimas noites em claro, segurando a mão do marido que está morrendo. Ou talvez essa mulher seja a funcionária mal remunerada do Departamento de Trânsito que, ontem mesmo, por meio de um pequeno gesto de bondade burocrática, ajudou algum conhecido seu a resolver um problema insolúvel de documentação.

Claro que nada disso é provável, mas tampouco é impossível. Tudo depende do que vocês queiram levar em conta. Se estiverem automaticamente convictos de conhecerem toda a realidade, vocês, assim como eu, não levarão em conta possibilidades que não sejam inúteis e irritantes. Mas, se vocês aprenderam como pensar, saberão que têm outras opções. Está ao alcance de vocês vivenciarem uma situação “inferno do consumidor” não apenas como significativa, mas como iluminada pela mesma força que acendeu as estrelas.

Relevem o tom aparentemente místico. A única coisa verdadeira, com V maiúsculo, é que vocês precisam decidir conscientemente o que, na vida, tem significado e o que não tem.

Na trincheira do dia-a-dia, não há lugar para o ateísmo. Não existe algo como “não venerar”. Todo mundo venera. A única opção que temos é decidir o que venerar. E o motivo para escolhermos algum tipo de Deus ou ente espiritual para venerar – seja Jesus Cristo, Alá ou Jeová, ou algum conjunto inviolável de princípios éticos – é que todo outro objeto de veneração te engolirá vivo. Quem venerar o dinheiro e extrair dos bens materiais o sentido de sua vida nunca achará que tem o suficiente. Aquele que venerar seu próprio corpo e beleza, e o fato de ser sexy, sempre se sentirá feio – e quando o tempo e a idade começarem a se manifestar, morrerá um milhão de mortes antes de ser efetivamente enterrado.

No fundo, sabemos de tudo isso, que está no coração de mitos, provérbios, clichês, epigramas e parábolas. Ao venerar o poder, você se sentirá fraco e amedrontado, e precisará de ainda mais poder sobre os outros para afastar o medo. Venerando o intelecto, sendo visto como inteligente, acabará se sentindo burro, um farsante na iminência de ser desmascarado. E assim por diante.

O insidioso dessas formas de veneração não está em serem pecaminosas – e sim em serem inconscientes. São o tipo de veneração em direção à qual você vai se acomodando quase que por gravidade, dia após dia. Você se torna mais seletivo em relação ao que quer ver, ao que valorizar, sem ter plena consciência de que está fazendo uma escolha.

 

O mundo jamais o desencorajará de operar na configuração padrão, porque o mundo dos homens, do dinheiro e do poder segue sua marcha alimentado pelo medo, pelo desprezo e pela veneração que cada um faz de si mesmo. A nossa cultura consegue canalizar essas forças de modo a produzir riqueza, conforto e liberdade pessoal. Ela nos dá a liberdade de sermos senhores de minúsculos reinados individuais, do tamanho de nossas caveiras, onde reinamos sozinhos.

Esse tipo de liberdade tem méritos. Mas existem outros tipos de liberdade. Sobre a liberdade mais preciosa, vocês pouco ouvirão no grande mundo adulto movido a sucesso e exibicionismo. A liberdade verdadeira envolve atenção, consciência, disciplina, esforço e capacidade de efetivamente se importar com os outros – no cotidiano, de forma trivial, talvez medíocre, e certamente pouco excitante. Essa é a liberdade real. A alternativa é a torturante sensação de ter tido e perdido alguma coisa infinita.

Pensem de tudo isso o que quiserem. Mas não descartem o que ouviram como um sermão cheio de certezas. Nada disso envolve moralidade, religião ou dogma. Nem questões grandiosas sobre a vida depois da morte. A verdade com V maiúsculo diz respeito à vida antes da morte. Diz respeito a chegar aos 30 anos, ou talvez aos 50, sem querer dar um tiro na própria cabeça. Diz respeito à consciência – consciência de que o real e o essencial estão escondidos na obviedade ao nosso redor – daquilo que devemos lembrar, repetindo sempre: “Isto é água, isto é água.”

É extremamente difícil lembrar disso, e permanecer consciente e vivo, um dia depois do outro.

David Foster Wallace

David Foster Wallace (1962–2008), romancista e ensaísta americano. Autor do livro Graça Infinita, lançado pela Companhia das Letras.