Ensaio sobre a cegueira

Resenhar um livro de Saramago é tarefa complexa, pois tudo o que eu disser, parecerá banal diante da dimensão da literatura deste grande autor.
Acho que a frase deste livro que melhor traduz o sentido da história é essa, “ainda está por nascer o primeiro ser humano desprovido daquela segunda pele a que chamamos egoísmo, bem mais dura que a outra, que por qualquer coisa sangra”.
Uma inexplicável epidemia de cegueira, a qual chamam de cegueira branca, atinge uma cidade, o primeiro a ser contaminado por assim dizer, é um homem que está dirigindo no trânsito e de repente se depara com uma superfície branca, daí o nome, e pouco a pouco vai se espalhando. Alguns deles se encontram no consultório do Dr. oftalmologista, que também acaba cegando, a única a não cegar é a mulher do médico. O governo achando se tratar de um mal contagioso, começa isolar todos os cegos num sanatório desativado da cidade, onde passam a viver sob condições subumanas, sem comida, sem roupas limpas, água e etc… Nessas condições as pessoas vivem como animais realmente e se relacionam sem quaisquer resquícios de vaidade ou julgamento. Um dia depois de uma grande confusão acontece um incêndio e eles se veem livres dessa prisão. Há um grupo de personagens peculiares que permanecem juntos, porém o mundo lá fora já não é o mesmo.
Não quero dar spoiler, então o que posso dizer à vocês é que o “ensaio sobre a cegueira”, abrange vários assuntos mas tem como tema central o egoísmo e a superficialidade com a qual vivemos no mundo contemporâneo, é como se diante disso, não merecessemos enxergar, para que a visão, se somos capazes de enxergar apenas nossos próprios interesses!?
“Cegueira é também a insensibilidade e a indiferença diante do infortúnio do outro”.
Não poderia deixar de mencionar esse trecho descrevendo o companheirismo e a alegria fortuita dos animais e que é tão lindo… “Tem, porém, a palavra comida poderes mágicos, mormente quando o apetite aperta, até o cão das lágrimas, que não conhece a linguagem, se pôs a abanar o rabo, o instintivo movimento fê-lo recordar-se que ainda não tinha feito aquilo a que estão obrigados os cães molhados, sacudirem-se com violência, respingando quanto estiver ao redor, neles é fácil, trazem a pele como se fosse um casaco. Água benta da mais eficaz, descida diretamente do céu, os salpicos ajudaram as pedras a transformarem-se em pessoas”.
Ao contrário de muitos livros, esta história não termina com um grande final que esclarece todos os acontecimentos, as respostas estão o tempo todo dentro da própria história e se você não for acometido pela cegueira branca, vai conseguir enxergar.

Obs: Trailer do filme, mas o livro é sempre melhor…

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