Isto é água

David Foster Wallace foi um reconhecido e premiado escritor americano, responsável por sucessos como “A vassoura do sistema, O rei pálido, Graça infinita”entre outros. Ele sofria de depressão e se suicidou aos 46 anos em 2008. Ainda não tive a oportunidade de ler nenhum de seus livros ( o que farei em beve), mas há pouco tempo fiquei sabendo pelo jornalista e escritor Xico Sá da existência de um discurso feito por David na cerimônia de formatura de um curso de artes nos Estados Unidos, anos antes de sua morte. E o que ele diz nesse discurso é simplesmente fantástico, não serve apenas para um jovem formando mas para qualquer pessoa que possua a aspiração de uma vida mais saudável mentalmente falando. O texto é um pouco longo, mas é ótimo e tenho certeza que em algum parágrafo ele vai se encaixar perfeitamente na sua vida. Sei que muitas pessoas nem vão dar atenção para isso e talvez o mundo não se torne melhor ou mais justo por conta desse discurso, mas se você ler e conseguir compreender a essência do que o David Foster Wallace diz, eu acredito muito que o seu mundo já ficará bem melhor. Por isso, senti que eu tinha que levar esse discurso ao maior número de pessoas possível, então decidi publicar aqui nesse pequeno espaço, mas se eu conseguir fazer uma pessoa que seja ler, já vou ficar feliz. Esse texto já foi publicado também pela revista Piauí (é o que lerão aqui) e me parece que agora Daniel Galera está traduzindo uma versão para a Companhia das letras.Vocês também podem ver mais sobre o assunto no ótimo “discreto blog da burguesia”.

Abaixo o texto e no final o link do discurso no youtube com a voz dele mesmo, só imagens reais do discurso é que não encontrei em nenhum vídeo.

Dois peixinhos estão nadando juntos e cruzam com um peixe mais velho, nadando em sentido contrário. Ele os cumprimenta e diz:

– Bom dia, meninos. Como está a água?

Os dois peixinhos nadam mais um pouco, até que um deles olha para o outro e pergunta:

– Água? Que diabo é isso?

Não se preocupem, não pretendo me apresentar a vocês como o peixe mais velho e sábio que explica o que é água ao peixe mais novo. Não sou um peixe velho e sábio. O ponto central da história dos peixes é que a realidade mais óbvia, ubíqua e vital costuma ser a mais difícil de ser reconhecida. Enunciada dessa forma, a frase soa como uma platitude – mas é fato que, nas trincheiras do dia-a-dia da existência adulta, lugares comuns banais podem adquirir uma importância de vida ou morte.

Boa parte das certezas que carrego comigo acabam se revelando totalmente equivocadas e ilusórias. Vou dar como exemplo uma de minhas convicções automáticas: tudo à minha volta respalda a crença profunda de que eu sou o centro absoluto do universo, de que sou a pessoa mais real, mais vital e essencial a viver hoje. Raramente mencionamos esse egocentrismo natural e básico, pois parece socialmente repulsivo, mas no fundo ele é familiar a todos nós. Ele faz parte de nossa configuração padrão, vem impresso em nossos circuitos ao nascermos.

Querem ver? Todas as experiências pelas quais vocês passaram tiveram, sempre, um ponto central absoluto: vocês mesmos. O mundo que se apresenta para ser experimentado está diante de vocês, ou atrás, à esquerda ou à direita, na sua tevê, no seu monitor, ou onde for. Os pensamentos e sentimentos dos outros precisam achar um caminho para serem captados, enquanto o que vocês sentem e pensam é imediato, urgente, real. Não pensem que estou me preparando para fazer um sermão sobre compaixão, desprendimento ou outras “virtudes”. Essa não é uma questão de virtude – trata-se de optar por tentar alterar minha configuração padrão original, impressa nos meus circuitos. Significa optar por me libertar desse egocentrismo profundo e literal que me faz ver e interpretar absolutamente tudo pelas lentes do meu ser.

Num ambiente de excelência acadêmica, cabe a pergunta: quanto do esforço em adequar a nossa configuração padrão exige de sabedoria ou de intelecto? A pergunta é capciosa. O risco maior de uma formação acadêmica – pelo menos no meu caso – é que ela reforça a tendência a intelectualizar demais as questões, a se perder em argumentos abstratos, em vez de simplesmente prestar atenção ao que está ocorrendo bem na minha frente.

Estou certo de que vocês já perceberam o quanto é difícil permanecer alerta e atento, em vez de hipnotizado pelo constante monólogo que travamos em nossas cabeças. Só vinte anos depois da minha formatura vim a entender que o surrado clichê de “ensinar os alunos como pensar” é, na verdade, uma simplificação de uma idéia bem mais profunda e séria. “Aprender a pensar” significa aprender como exercer algum controle sobre como e o que cada um pensa. Significa ter plena consciência do que escolher como alvo de atenção e pensamento. Se vocês não conseguirem fazer esse tipo de escolha na vida adulta, estarão totalmente à deriva.

Lembrem o velho clichê: “A mente é um excelente servo, mas um senhorio terrível.” Como tantos clichês, também esse soa inconvincente e sem graça. Mas ele expressa uma grande e terrível verdade. Não é coincidência que adultos que se suicidam com armas de fogo quase sempre o façam com um tiro na cabeça. Só que, no fundo, a maioria desses suicidas já estava morta muito antes de apertar o gatilho. Acredito que a essência de uma educação na área de humanas, eliminadas todas as bobagens e patacoadas que vêm junto, deveria contemplar o seguinte ensinamento: como percorrer uma confortável, próspera e respeitável vida adulta sem já estar morto, inconsciente, escravizado pela nossa configuração padrão – a de sermos singularmente, completamente, imperialmente sós.

Isso também parece outra hipérbole, mais uma abstração oca. Sejamos concretos então. O fato cru é que vocês, graduandos, ainda não têm a mais vaga idéia do significado real do que seja viver um dia após o outro. Existem grandes nacos da vida adulta sobre os quais ninguém fala em discursos de formatura. Um desses nacos envolve tédio, rotina e frustração mesquinha.

 

Vou dar um exemplo prosaico imaginando um dia qualquer do futuro. Você acordou de manhã, foi para seu prestigiado emprego, suou a camisa por nove ou dez horas e, ao final do dia, está cansado, estressado, e tudo que deseja é chegar em casa, comer um bom prato de comida, talvez relaxar por umas horas, e depois ir para cama, porque terá de acordar cedo e fazer tudo de novo. Mas aí lembra que não tem comida na geladeira. Você não teve tempo de fazer compras naquela semana, e agora precisa entrar no carro e ir ao supermercado. Nesse final de dia, o trânsito está uma lástima.

Quando você finalmente chega lá, o supermercado está lotado, horrivelmente iluminado com lâmpadas fluorescentes e impregnado de uma música ambiente de matar. É o último lugar do mundo onde você gostaria de estar, mas não dá para entrar e sair rapidinho: é preciso percorrer todos aqueles corredores superiluminados para encontrar o que procura, e manobrar seu carrinho de compras de rodinhas emperradas entre todas aquelas outras pessoas cansadas e apressadas com seus próprios carrinhos de compras. E, claro, há também aqueles idosos que não saem da frente, e as pessoas desnorteadas, e os adolescentes hiperativos que bloqueiam o corredor, e você tem que ranger os dentes, tentar ser educado, e pedir licença para que o deixem passar. Por fim, com todos os suprimentos no carrinho, percebe que, como não há caixas suficientes funcionando, a fila é imensa, o que é absurdo e irritante, mas você não pode descarregar toda a fúria na pobre da caixa que está à beira de um ataque de nervos.

De qualquer modo, você acaba chegando à caixa, paga por sua comida e espera até que o cheque ou o cartão seja autenticado pela máquina, e depois ouve um “boa noite, volte sempre” numa voz que tem o som absoluto da morte. Na volta para casa, o trânsito está lento, pesado etc. e tal.

É num momento corriqueiro e desprezível como esse que emerge a questão fundamental da escolha. O engarrafamento, os corredores lotados e as longas filas no supermercado me dão tempo de pensar. Se eu não tomar uma decisão consciente sobre como pensar a situação, ficarei irritado cada vez que for comprar comida, porque minha configuração padrão me leva a pensar que situações assim dizem respeito a mim, a minha fome, minha fadiga, meu desejo de chegar logo em casa. Parecerá sempre que as outras pessoas não passam de estorvos. E quem são elas, aliás? Quão repulsiva é a maioria, quão bovinas, e inexpressivas e desumanas parecem ser as da fila da caixa, quão enervantes e rudes as que falam alto nos celulares.

Também posso passar o tempo no congestionamento zangado e indignado com todas essas vans, e utilitários e caminhões enormes e estúpidos, bloqueando as pistas, queimando seus imensos tanques de gasolina, egoístas e perdulários. Posso me aborrecer com os adesivos patrióticos ou religiosos, que sempre parecem estar nos automóveis mais potentes, dirigidos pelos motoristas mais feios, desatenciosos e agressivos, que costumam falar no celular enquanto fecham os outros, só para avançar uns 20 metros idiotas no engarrafamento. Ou posso me deter sobre como os filhos dos nossos filhos nos desprezarão por desperdiçarmos todo o combustível do futuro, e provavelmente estragarmos o clima, e quão mal-acostumados e estúpidos e repugnantes todos nós somos, e como tudo isso é simplesmente pavoroso etc. e tal.

Se opto conscientemente por seguir essa linha de pensamento, ótimo, muitos de nós somos assim – só que pensar dessa maneira tende a ser tão automático que sequer precisa ser uma opção. Ela deriva da minha configuração padrão.

Mas existem outras formas de pensar. Posso, por exemplo, me forçar a aceitar a possibilidade de que os outros na fila do supermercado estão tão entediados e frustrados quanto eu, e, no cômputo geral, algumas dessas pessoas provavelmente têm vidas bem mais difíceis, tediosas ou dolorosas do que eu.

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Fazer isso é difícil, requer força de vontade e empenho mental. Se vocês forem como eu, alguns dias não conseguirão fazê-lo, ou simplesmente não estarão a fim. Mas, na maioria dos dias, se estiverem atentos o bastante para escolher, poderão preferir olhar melhor para essa mulher gorducha, inexpressiva e estressada que acabou de berrar com a filhinha na fila da caixa. Talvez ela não seja habitualmente assim. Talvez ela tenha passado as três últimas noites em claro, segurando a mão do marido que está morrendo. Ou talvez essa mulher seja a funcionária mal remunerada do Departamento de Trânsito que, ontem mesmo, por meio de um pequeno gesto de bondade burocrática, ajudou algum conhecido seu a resolver um problema insolúvel de documentação.

Claro que nada disso é provável, mas tampouco é impossível. Tudo depende do que vocês queiram levar em conta. Se estiverem automaticamente convictos de conhecerem toda a realidade, vocês, assim como eu, não levarão em conta possibilidades que não sejam inúteis e irritantes. Mas, se vocês aprenderam como pensar, saberão que têm outras opções. Está ao alcance de vocês vivenciarem uma situação “inferno do consumidor” não apenas como significativa, mas como iluminada pela mesma força que acendeu as estrelas.

Relevem o tom aparentemente místico. A única coisa verdadeira, com V maiúsculo, é que vocês precisam decidir conscientemente o que, na vida, tem significado e o que não tem.

Na trincheira do dia-a-dia, não há lugar para o ateísmo. Não existe algo como “não venerar”. Todo mundo venera. A única opção que temos é decidir o que venerar. E o motivo para escolhermos algum tipo de Deus ou ente espiritual para venerar – seja Jesus Cristo, Alá ou Jeová, ou algum conjunto inviolável de princípios éticos – é que todo outro objeto de veneração te engolirá vivo. Quem venerar o dinheiro e extrair dos bens materiais o sentido de sua vida nunca achará que tem o suficiente. Aquele que venerar seu próprio corpo e beleza, e o fato de ser sexy, sempre se sentirá feio – e quando o tempo e a idade começarem a se manifestar, morrerá um milhão de mortes antes de ser efetivamente enterrado.

No fundo, sabemos de tudo isso, que está no coração de mitos, provérbios, clichês, epigramas e parábolas. Ao venerar o poder, você se sentirá fraco e amedrontado, e precisará de ainda mais poder sobre os outros para afastar o medo. Venerando o intelecto, sendo visto como inteligente, acabará se sentindo burro, um farsante na iminência de ser desmascarado. E assim por diante.

O insidioso dessas formas de veneração não está em serem pecaminosas – e sim em serem inconscientes. São o tipo de veneração em direção à qual você vai se acomodando quase que por gravidade, dia após dia. Você se torna mais seletivo em relação ao que quer ver, ao que valorizar, sem ter plena consciência de que está fazendo uma escolha.

 

O mundo jamais o desencorajará de operar na configuração padrão, porque o mundo dos homens, do dinheiro e do poder segue sua marcha alimentado pelo medo, pelo desprezo e pela veneração que cada um faz de si mesmo. A nossa cultura consegue canalizar essas forças de modo a produzir riqueza, conforto e liberdade pessoal. Ela nos dá a liberdade de sermos senhores de minúsculos reinados individuais, do tamanho de nossas caveiras, onde reinamos sozinhos.

Esse tipo de liberdade tem méritos. Mas existem outros tipos de liberdade. Sobre a liberdade mais preciosa, vocês pouco ouvirão no grande mundo adulto movido a sucesso e exibicionismo. A liberdade verdadeira envolve atenção, consciência, disciplina, esforço e capacidade de efetivamente se importar com os outros – no cotidiano, de forma trivial, talvez medíocre, e certamente pouco excitante. Essa é a liberdade real. A alternativa é a torturante sensação de ter tido e perdido alguma coisa infinita.

Pensem de tudo isso o que quiserem. Mas não descartem o que ouviram como um sermão cheio de certezas. Nada disso envolve moralidade, religião ou dogma. Nem questões grandiosas sobre a vida depois da morte. A verdade com V maiúsculo diz respeito à vida antes da morte. Diz respeito a chegar aos 30 anos, ou talvez aos 50, sem querer dar um tiro na própria cabeça. Diz respeito à consciência – consciência de que o real e o essencial estão escondidos na obviedade ao nosso redor – daquilo que devemos lembrar, repetindo sempre: “Isto é água, isto é água.”

É extremamente difícil lembrar disso, e permanecer consciente e vivo, um dia depois do outro.

David Foster Wallace

David Foster Wallace (1962–2008), romancista e ensaísta americano. Autor do livro Graça Infinita, lançado pela Companhia das Letras.

Tempo de despertar

Este filme me marcou, não só por ser um assunto de grande interesse para mim, mas pela sensibilidade e humanidade com que é tratado o tema, fazendo com o que, a princípio poderia ser uma assunto depressivo e enfadonho em algo espetacular. O filme é baseado na vida do grande médico e escritor Oliver Sacks e em seu livro “Awakenings”, indicado ao oscar de melhor roteiro adaptado e melhor ator para Robert de Niro. Taí outro forte motivo desse filme me sensibilizar, temos aqui impressionantes atuações de Robin Williams como (Dr. Malcolm Sayer) e para mim o melhor de todos, Robert de Niro como (Leonard). O Dr. Malcolm Sayer (Robin Williams) aceita trabalhar como médico neurologista no Hospital Berth Obraham no Bronx em Nova Iorque, mesmo sem experiência ele acaba se envolvendo com um grupo de pacientes que são catatônicos e possuem uma doença chamada encefalite letárgica, o que aparentemente os deixa como se estivessem “adormecidos”. O Dr. Sayer estuda a doença e percebe que seus danos são semelhantes aos do Parkinson e que também não tinha cura, mas havia chance de tratamento e empolgado em dar a vida de volta à esses pacientes, é que ele luta contra tudo e todos. Muitas dúvidas são postas em discussão, como por exemplo o fato de muitos pacientes estarem nesse estado desde a infância e será que eles estariam preparados para o mundo lá fora? E suas famílias estariam preparadas para recebê-los? Os outros médicos não acreditavam que ele pudesse reverter essa situação. Mas sob forte insistência Sayer consegue convencer e experimentar seu tratamento em Leonard(Robert de Niro) e o que acontece com ele é simplesmente maravilhoso. Leonard desperta de seu estado paralisado e em transe para o mundo, cheio de esperança com uma vontade ímpar de viver e cenas como o encontro dele com a mãe, depois de despertar são das mais tocantes. Também temos momentos interessantes e engraçados com outros pacientes como a Dna. Lucy. Mas a felicidade do Dr. Sayer começa a frustrá-lo quando ele nota que os efeitos do tratamento são temporários e que os efeitos colaterais podem ser severos. No entanto é inegável o bem que aquele médico proporcionou mesmo que por pouco tempo à vida daquelas pessoas, que pela primeira vez são vistas pela sociedade com dignidade. A história faz a nós e ao próprio Dr. Sayer enxergar mais uma vez o valor das coisas simples e como algumas situações corriqueiras para nós, como o simples fato de se levantar e sair andando, para outros pode significar tanto. É impossível não se emocionar com “tempo de despertar” e em especial com Leonard(Robert de Niro), e o que Oliver Sacks fez  foi simplesmente devolver a vida à essas pessoas, despertando nelas, sensações e desejos nunca antes experimentados e uma incontrolável vontade de continuar.

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O espelho / Machado de Assis

Antes de mais nada, devo confessar que sou uma fã ardorosa e obstinada por Machado de Assis. “Não” o acho chato, e sua leitura sim, requer um pouco de dedicação, mas nada que não seja deliciosamente compensado com suas sábias histórias.

Nesse conto “o espelho”, Machado de Assis faz uma profunda análise da identidade do homem. Jacobina é um home de 45 anos que se encontrava com mais quatro amigos na casa de um deles, onde conversavam sobre alma, o homem, o universo, a vida enfim, porém Jacobina mantinha-se calado apenas ouvindo e desafiado por um dos amigos a expor sua opinião, é que ele decide contar uma fase de sua própria vida e defender sua ideia de que todo homem tem duas almas, a interior e a exterior. A interior que representa quem verdadeiramente somos e a exterior vista de fora, que segundo ele também pode ser um carro, uma posição social ou um simples par de botas novas e etc…

Jacobina era de família humilde, mas sua vida mudou aos 25 anos de idade, quando foi nomeado Alferes da guarda Nacional. Sua família, amigos e conhecidos já não o viam com os mesmos olhos, agora todos tinham orgulho dele, e de Joãozinho passou agora a Sr. Alferes, então lentamente ele se deixou levar e a alma interior foi cedendo lugar a alma exterior. Um dia sua tia Marcolina o convida para passar uns dias em seu sítio e no quarto destinado à ele, coloca em homenagem ao seu novo status um espelho, item mais valioso da residência e pertencente a família real portuguesa. E é nesse momento que sua identidade começa a se perder de vez, ele vai sendo consumido e já não enxerga mais a si próprio, mas sim a imagem projetada pelos outros. Tia Marcolina sai de viagem e os escravos se aproveitando disso, fogem, assim Jacobina se vê sozinho e quando se olha no espelho, não se reconhece, vê apenas uma imagem turva e distorcida, com isso vai se sentindo cada vez mais só e para conseguir suportar essa solidão, é que ele tem a idéia de vestir a farda e aí sim quando tem sua imagem refletida no espelho, ela é nítida e dessa forma ele encontrou um meio de recuperar a alma exterior que agora preenchia o vazio deixado pela alma interior. Quando acaba seu relato, sai e deixa seus amigos numa profunda reflexão.

Quanto a nós humanos, Machado nos faz entender que damos muito mais valor a alma exterior das pessoas ligada a status, posição social, dinheiro do que àquilo que as pessoas são verdadeiramente. Ou seja, para nós não basta ser, é necessário que os outros acreditem nisso também. Taí o facebook que não me deixa mentir, ou melhor não deixa o Machado mentir.

Ed. Nova Fronteira

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Helter Skelter

“Quando eu chego no chão, eu volto para o topo do escorregador, onde eu paro, me viro e saio para outra volta. Até que eu volte ao chão e te veja novamente.”

Helter Skelter / Beatles

 

Eu diria que esse filme é impressionante, especialmente por se tratar de uma história real. A velha premissa de como alguém fragilizado e mal instruído fica vulnerável as mais inacreditáveis inverdades, que tomam para si como verdades absolutas e inquestionáveis, fazendo disso não só a explicação para os seus problemas, mas a solução dos mesmos. O filme conta a história de um dos psicopatas mais pirados que o mundo já conheceu, “Charles Manson”.

O título do filme faz referência à música dos Beatles, que Manson acreditava serem os quatro cavaleiros do apocalipse que traziam mensagens subliminares nas suas músicas e essa em especial ele acreditava falar para ele sobre uma batalha final na terra, onde os negros (os quais ele não tinha nenhuma simpatia) reinariam sobre os brancos e o mundo acabaria tragicamente. A história é baseada na biografia escrita por Vincent Bugliosi, quem interpreta Manson, muito bem por sinal é Jeremy Davies, filho de uma prostituta e um alcoólatra, ele nunca conheceu o pai, teve uma infância das mais perturbadoras, sempre fora rejeitado e passou praticamente a vida toda em reformatórios, ex presidiário e frustrado com uma mal sucedida carreira de astro do rock, em 1969 (época Hippie), ele se muda para um rancho na Califórnia e lá criou a “família Manson”. Uma espécie de seita que tinha entre seus preceitos mais difundidos a soberania da raça branca, seus seguidores acreditavam que ele era um messias, Jesus Cristo reencarnado, e o mais surpreendente aqui, é como jovens bem sucedidos e que tinham tudo para dar certo na vida, acabaram dessa forma participando de crimes por livre e espontânea vontade. E é aí que voltamos a história do intelecto mal preparado e evoluído que se torna vulnerável a todo tipo de absurdo, muito parecido com algumas religiões.

Em dado momento, como ninguém trabalhava na comunidade, Manson explica e convence seus seguidores, que se você roubar de alguém que tem mais que você, para levar para a “família Manson”, você não está fazendo nada de errado, pelo contrário, está ajudando a família (um Robin Hood às avessas). Tudo começa com Linda Kassabian ( Cléa Duvall) uma jovem com a filha pequena que sai de casa e sem ter para onde ir, vai viver com Manson e sua família, assim que chega ela é separada da filha, pois uma das regras dizia que as crianças tinham que conviver com as crianças longe dos pais. Ela, sem opção aceita as regras, mas logo percebe o problema que arrumou, pois sabia que os jovens cometiam crimes e assassinatos convencidos por Manson que estavam fazendo algo legal, porém ela tinha consciência que tudo aquilo era errado e sentia-se mal por ter que participar. Susan Atkins a “Sadie” (Marguerite Moreau) era uma das seguidoras mais fiéis e também a mais maluca. Como Manson estava obstinado em gravar um disco para difundir suas ideias pelo mundo, e andava revoltado com seu produtor por ele ter lhe negado um contrato e conduzir tudo com má vontade e ainda convencido de que uma guerra entre brancos e negros estava prestes a ocorrer, ele resolveu dar o pontapé inicial nessa guerra que seria a Helter Skelter. Ele radicaliza e recruta membros da família liderado por Sadie para invadir o apartamento do produtor e assassiná-lo, ele quase nunca estava presente nos crimes, mas tudo era arquitetado e arranjado por ele, só que quando os integrantes da família chegam ao local, não era mais o produtor que morava lá e sim a atriz Sharon Tate, esposa de Roman Polanski. Ela dava um jantar para alguns amigos, o pessoal de Manson invade o apartamento, amarram e matam todos, inclusive Sharon grávida de oito meses com 16 facadas, com o sangue das vítimas escreveram nas paredes palavras como war e helter skelter. Assim era a vida dos membros da comunidade, assassinatos, roubos, orgias e uso de lsd. Certo dia, um garoto acha a arma utilizada em um dos crimes, e a polícia bate no rancho e leva todos presos. Num processo cheio de acontecimentos estranhos e inesperados, inclusive o depoimento de Linda Kassabian contra ele, Charles Manson é condenado a pena de morte, mas devido a mudança de leis no estado, mudam para prisão perpétua, e ele cumpre pena até hoje, por várias vezes tentou a liberdade condicional, mas sempre negaram, pois ainda hoje ele vive em seu mundo paralelo sem reconhecer nada de errado em seus atos e se considera um ser supremo. Sadie uma das jovens presas, já morreu, mas dizem que quando foi presa, ela cantava e dançava na cadeia e chegou a assustar sua companheira de cela contando detalhes do assassinato de Sharon Tate. Mesmo sem o seu líder e alguns integrantes a “família Manson” ainda existiu por um bom tempo. Charles Manson se casou há pouco tempo na prisão, acho que seu poder de persuasão ainda é grande. Eu o acho assustador e recentemente traduziram uma biografia dele para o português que me deixou bem ansiosa para ler. Não é fascínio pelo crime, mas curiosidade de entender uma mente tão perversa, manipuladora e subversiva.

Charles Manson

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Família Manson

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Antologia Poética / Vinicius de Moraes

Vinicius de Moraes, o poetinha como ficou conhecido, nasceu em 19 de outubro de 1913 no Rio de Janeiro e viveu até 9 de julho de 1980 (muito pouco). Vindo de uma família de artistas, entre suas várias funções, Vinicius foi um boêmio por natureza, grande poeta e compositor brasileiro, tendo passado pela literatura, música , teatro e cinema. Na música, ele teve vários parceiros como Baden Powell, Adoniran Barbosa, Tom Jobim, Toquinho, Chico Buarque entre outros, e fez lindas canções como por exemplo “minha namorada”, “samba da benção” e tantas mais. Acho que existe muito da poesia nas músicas de Vinicius e embora insistissem em dividir seu trabalho, ele nunca concordou com isso, dizendo que para ele era tudo igual, música, poesia e etc… Sua poesia é dividida em várias fases que caracterizam sua obra. É claro que para entender Vinicius ao pé da letra é necessário tempo e dedicação, sobretudo hoje no nosso mundo digital, é difícil as pessoas pararem para ler um poema, no entanto eu diria que a poesia tem muito à acrescentar na nossa vida e se você nunca leu Vinicius de Moraes, não sabe o que está perdendo.

Antes de mais nada, encontrei essa definição de antologia na internet e achei linda, “antologia significa etmologicamente falando coletânea de flores, o termo remete a ideia de escolha, coleção.” E para mim esse livro de Vinicius é exatamente isso, uma “coletânea de flores.” Ele divide a antologia em três partes, a primeira é mística e religiosa, a segunda é uma fase de transição e a terceira de tendência esquerdista, onde tem temas como a valorização do trabalho, preconceito de classes e etc… Esta é a que ele vê como definitiva. Não consigo escolher uma como a minha preferida, pois todas são lindas e em todas ele tem muito a nos dizer. A intenção aqui não é fazer uma crítica literária a obra dele, pois acho que acima disso, Vinicius tem que ser sentido, apreciado como um bom vinho.

vinicius-boemio

Existe entre mim e ele, uma mágica que não sei bem explicar, por diversas vezes, peguei algum poema desconhecido nas mãos, que ao ler, me fez explodir de satisfação e encantada com tamanha beleza, quando ia ler o nome do autor, lá estava ele Vinicius de Moraes. Hoje, antes mesmo de ler o nome do autor, já sei que quando um poema faz isso comigo, quem assina embaixo é ele.

Para mim Vinicius é um dos maiores poetas de todos os tempos e sua obra vai se perpetuar como tem acontecido até agora. Abaixo encontramos alguns trechos de poemas desse livro, que eu acho que transcendem bem a beleza de seu trabalho.

“De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto. ”

 Soneto de separação

“Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.”

 Soneto de fidelidade

“Amo-te afim, de um calmo amor prestante,
E te amo além, presente na saudade.
Amo-te, enfim, com grande liberdade
Dentro da eternidade e a cada instante. ”

 Soneto de amor total

Pensem nas crianças
Mudas telepáticas
Pensem nas meninas
Cegas inexatas
Pensem nas mulheres
Rotas alteradas
Pensem nas feridas
Como rosas cálidas
Mas oh não se esqueçam
Da rosa da rosa
Da rosa de Hiroxima
A rosa hereditária
A rosa radioativa
Estúpida e inválida
A rosa com cirrose
A antirrosa atômica
Sem cor sem perfume
Sem rosa sem nada

A rosa de Hiroxima

De fato, como podia
Um operário em construção
Compreender por que um tijolo
Valia mais do que um pão?
Tijolos ele empilhava
Com pá, cimento e esquadria
Quanto ao pão, ele o comia…
Mas fosse comer tijolo!
E assim o operário ia
Com suor e com cimento
Erguendo uma casa aqui
Adiante um apartamento
Além uma igreja, à frente
Um quartel e uma prisão:
Prisão de que sofreria
Não fosse, eventualmente
Um operário em construção.

O operário em construção

Livro Editora José Olympio

 

Garota Exemplar

Esta é a história do casal Nick (Ben Affleck) e Amy Dunne ( Rosamund Pike – indicada ao oscar), baseado no livro de mesmo nome de Gillian Flynn, dirigido por David Fincher, responsável por vários filmes de sucesso como, o quarto do pânico, clube da luta, seven e outros.

A lenda do casal perfeito, que tem o casamento dos sonhos, exemplos de bom caráter e comportamento e que na realidade não é nada disso. No dia em que comemoravam 5 anos de casamento, Nick chega em casa, encontra tudo revirado e Amy está desaparecida, então ele sem entender nada, chama a polícia, e ao mesmo tempo em que tenta entender o que aconteceu e onde está Amy, ele também tem que provar sua inocência, já que se torna o principal suspeito. A história nos é contada entre cenas atuais e flashbacks do que se supõe que tenha acontecido, através da narração do diário de Amy. O que teria acontecido à ela? Afinal, Nick é culpado realmente? Estas são perguntas que nos acompanham o filme todo, dentro de um clima de repleto suspense, assim o autor questiona também a cobertura da imprensa sensacionalista, que faz tudo virar um circo. Mas ao desenrolar da trama, vamos compreendendo que o que teria acontecido à Amy, não é o mais relevante, mas sim o que teria acontecido com o relacionamento deles e no que eles teriam se transformado em virtude disso.

O filme é cheio de reviravoltas e surpreende até a última cena, que para muitos deixa uma grande interrogação, nos fazendo acreditar que no mínimo, haverá um garota exemplar parte 2. Porém, como de costume, quem leu o livro, garante que esta dúvida não existe no livro e tudo termina ali mesmo bem explicadinho. Uma coisa é certa, tanto o filme quanto o livro, valem a pena. Em ambos os casos você estará fazendo uma boa escolha.

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Livro da editora Intrínseca

Por um fio / Dráuzio Varella

Que Dráuzio Varella é um grande médico, todos sabemos, pois bem, para quem não sabe ele é também um bom escritor. Desculpem o trocadilho, não há apenas convicção, temos provas também, taí Carandiru livro e filme que não me deixa mentir, Mas isso é assunto para um outro post.

Por um fio é um livro, que diferentemente do que li algumas vezes, não é um livro interessante somente para estudantes de medicina, pois entendo que o assunto primordial deste livro é a vida e como lidamos com ela. Claro que Dráuzio como bom médico oncologista que é, também fala da relação médico paciente (interessante para os pretendentes a área) mas não só isso, ele também fala de sua carreira, conta sua história, de como escolheu a medicina como profissão e passa muitas informações sobra a aids e o câncer. Tudo isso de uma forma interessante, que não causa tédio como em muitos livros que geralmente abordam esses temas.

O livro é formado por pequenos contos, onde o autor relata algumas experiências marcantes com pacientes, desde momento em que dá a notícia da doença, a reação do paciente, da família que muitas vezes consola e acolhe e outras simplesmente abandona, e a incrível forma na maioria dos casos, de como a pessoa passa a dar um novo sentido à sua vida, é como se a notícia de uma possível morte breve, se transformasse em um renascimento. Sim, nos deparamos com momentos muito tristes, mas não chega ser um livro depressivo, também temos momentos cômicos e muitos outros que nos fazem parar a leitura para pensar. Pensar na nossa vida, nas nossas atitudes, nas coisas que são importantes para nós, as que damos valor e principalmente a maneira como lidamos com as adversidades da vida. Dráuzio tem linguagem simples com poucos termos médicos e acho que é uma leitura válida para todas as áreas.

Uma coisa que me agrada muito nos livros do Dráuzio Varella, é que gosto de pensar nesse lado sensível do médico, que trata o paciente que muitas vezes já está numa situação difícil, com humanidade, com respeito, visando o objetivo principal da profissão e não apenas o lucro em si. Coisa que honestamente na atual realidade já deixei de acreditar.

Editora Companhia das letras