O espelho / Machado de Assis

Antes de mais nada, devo confessar que sou uma fã ardorosa e obstinada por Machado de Assis. “Não” o acho chato, e sua leitura sim, requer um pouco de dedicação, mas nada que não seja deliciosamente compensado com suas sábias histórias.

Nesse conto “o espelho”, Machado de Assis faz uma profunda análise da identidade do homem. Jacobina é um home de 45 anos que se encontrava com mais quatro amigos na casa de um deles, onde conversavam sobre alma, o homem, o universo, a vida enfim, porém Jacobina mantinha-se calado apenas ouvindo e desafiado por um dos amigos a expor sua opinião, é que ele decide contar uma fase de sua própria vida e defender sua ideia de que todo homem tem duas almas, a interior e a exterior. A interior que representa quem verdadeiramente somos e a exterior vista de fora, que segundo ele também pode ser um carro, uma posição social ou um simples par de botas novas e etc…

Jacobina era de família humilde, mas sua vida mudou aos 25 anos de idade, quando foi nomeado Alferes da guarda Nacional. Sua família, amigos e conhecidos já não o viam com os mesmos olhos, agora todos tinham orgulho dele, e de Joãozinho passou agora a Sr. Alferes, então lentamente ele se deixou levar e a alma interior foi cedendo lugar a alma exterior. Um dia sua tia Marcolina o convida para passar uns dias em seu sítio e no quarto destinado à ele, coloca em homenagem ao seu novo status um espelho, item mais valioso da residência e pertencente a família real portuguesa. E é nesse momento que sua identidade começa a se perder de vez, ele vai sendo consumido e já não enxerga mais a si próprio, mas sim a imagem projetada pelos outros. Tia Marcolina sai de viagem e os escravos se aproveitando disso, fogem, assim Jacobina se vê sozinho e quando se olha no espelho, não se reconhece, vê apenas uma imagem turva e distorcida, com isso vai se sentindo cada vez mais só e para conseguir suportar essa solidão, é que ele tem a idéia de vestir a farda e aí sim quando tem sua imagem refletida no espelho, ela é nítida e dessa forma ele encontrou um meio de recuperar a alma exterior que agora preenchia o vazio deixado pela alma interior. Quando acaba seu relato, sai e deixa seus amigos numa profunda reflexão.

Quanto a nós humanos, Machado nos faz entender que damos muito mais valor a alma exterior das pessoas ligada a status, posição social, dinheiro do que àquilo que as pessoas são verdadeiramente. Ou seja, para nós não basta ser, é necessário que os outros acreditem nisso também. Taí o facebook que não me deixa mentir, ou melhor não deixa o Machado mentir.

Ed. Nova Fronteira

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Helter Skelter

“Quando eu chego no chão, eu volto para o topo do escorregador, onde eu paro, me viro e saio para outra volta. Até que eu volte ao chão e te veja novamente.”

Helter Skelter / Beatles

 

Eu diria que esse filme é impressionante, especialmente por se tratar de uma história real. A velha premissa de como alguém fragilizado e mal instruído fica vulnerável as mais inacreditáveis inverdades, que tomam para si como verdades absolutas e inquestionáveis, fazendo disso não só a explicação para os seus problemas, mas a solução dos mesmos. O filme conta a história de um dos psicopatas mais pirados que o mundo já conheceu, “Charles Manson”.

O título do filme faz referência à música dos Beatles, que Manson acreditava serem os quatro cavaleiros do apocalipse que traziam mensagens subliminares nas suas músicas e essa em especial ele acreditava falar para ele sobre uma batalha final na terra, onde os negros (os quais ele não tinha nenhuma simpatia) reinariam sobre os brancos e o mundo acabaria tragicamente. A história é baseada na biografia escrita por Vincent Bugliosi, quem interpreta Manson, muito bem por sinal é Jeremy Davies, filho de uma prostituta e um alcoólatra, ele nunca conheceu o pai, teve uma infância das mais perturbadoras, sempre fora rejeitado e passou praticamente a vida toda em reformatórios, ex presidiário e frustrado com uma mal sucedida carreira de astro do rock, em 1969 (época Hippie), ele se muda para um rancho na Califórnia e lá criou a “família Manson”. Uma espécie de seita que tinha entre seus preceitos mais difundidos a soberania da raça branca, seus seguidores acreditavam que ele era um messias, Jesus Cristo reencarnado, e o mais surpreendente aqui, é como jovens bem sucedidos e que tinham tudo para dar certo na vida, acabaram dessa forma participando de crimes por livre e espontânea vontade. E é aí que voltamos a história do intelecto mal preparado e evoluído que se torna vulnerável a todo tipo de absurdo, muito parecido com algumas religiões.

Em dado momento, como ninguém trabalhava na comunidade, Manson explica e convence seus seguidores, que se você roubar de alguém que tem mais que você, para levar para a “família Manson”, você não está fazendo nada de errado, pelo contrário, está ajudando a família (um Robin Hood às avessas). Tudo começa com Linda Kassabian ( Cléa Duvall) uma jovem com a filha pequena que sai de casa e sem ter para onde ir, vai viver com Manson e sua família, assim que chega ela é separada da filha, pois uma das regras dizia que as crianças tinham que conviver com as crianças longe dos pais. Ela, sem opção aceita as regras, mas logo percebe o problema que arrumou, pois sabia que os jovens cometiam crimes e assassinatos convencidos por Manson que estavam fazendo algo legal, porém ela tinha consciência que tudo aquilo era errado e sentia-se mal por ter que participar. Susan Atkins a “Sadie” (Marguerite Moreau) era uma das seguidoras mais fiéis e também a mais maluca. Como Manson estava obstinado em gravar um disco para difundir suas ideias pelo mundo, e andava revoltado com seu produtor por ele ter lhe negado um contrato e conduzir tudo com má vontade e ainda convencido de que uma guerra entre brancos e negros estava prestes a ocorrer, ele resolveu dar o pontapé inicial nessa guerra que seria a Helter Skelter. Ele radicaliza e recruta membros da família liderado por Sadie para invadir o apartamento do produtor e assassiná-lo, ele quase nunca estava presente nos crimes, mas tudo era arquitetado e arranjado por ele, só que quando os integrantes da família chegam ao local, não era mais o produtor que morava lá e sim a atriz Sharon Tate, esposa de Roman Polanski. Ela dava um jantar para alguns amigos, o pessoal de Manson invade o apartamento, amarram e matam todos, inclusive Sharon grávida de oito meses com 16 facadas, com o sangue das vítimas escreveram nas paredes palavras como war e helter skelter. Assim era a vida dos membros da comunidade, assassinatos, roubos, orgias e uso de lsd. Certo dia, um garoto acha a arma utilizada em um dos crimes, e a polícia bate no rancho e leva todos presos. Num processo cheio de acontecimentos estranhos e inesperados, inclusive o depoimento de Linda Kassabian contra ele, Charles Manson é condenado a pena de morte, mas devido a mudança de leis no estado, mudam para prisão perpétua, e ele cumpre pena até hoje, por várias vezes tentou a liberdade condicional, mas sempre negaram, pois ainda hoje ele vive em seu mundo paralelo sem reconhecer nada de errado em seus atos e se considera um ser supremo. Sadie uma das jovens presas, já morreu, mas dizem que quando foi presa, ela cantava e dançava na cadeia e chegou a assustar sua companheira de cela contando detalhes do assassinato de Sharon Tate. Mesmo sem o seu líder e alguns integrantes a “família Manson” ainda existiu por um bom tempo. Charles Manson se casou há pouco tempo na prisão, acho que seu poder de persuasão ainda é grande. Eu o acho assustador e recentemente traduziram uma biografia dele para o português que me deixou bem ansiosa para ler. Não é fascínio pelo crime, mas curiosidade de entender uma mente tão perversa, manipuladora e subversiva.

Charles Manson

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Família Manson

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Antologia Poética / Vinicius de Moraes

Vinicius de Moraes, o poetinha como ficou conhecido, nasceu em 19 de outubro de 1913 no Rio de Janeiro e viveu até 9 de julho de 1980 (muito pouco). Vindo de uma família de artistas, entre suas várias funções, Vinicius foi um boêmio por natureza, grande poeta e compositor brasileiro, tendo passado pela literatura, música , teatro e cinema. Na música, ele teve vários parceiros como Baden Powell, Adoniran Barbosa, Tom Jobim, Toquinho, Chico Buarque entre outros, e fez lindas canções como por exemplo “minha namorada”, “samba da benção” e tantas mais. Acho que existe muito da poesia nas músicas de Vinicius e embora insistissem em dividir seu trabalho, ele nunca concordou com isso, dizendo que para ele era tudo igual, música, poesia e etc… Sua poesia é dividida em várias fases que caracterizam sua obra. É claro que para entender Vinicius ao pé da letra é necessário tempo e dedicação, sobretudo hoje no nosso mundo digital, é difícil as pessoas pararem para ler um poema, no entanto eu diria que a poesia tem muito à acrescentar na nossa vida e se você nunca leu Vinicius de Moraes, não sabe o que está perdendo.

Antes de mais nada, encontrei essa definição de antologia na internet e achei linda, “antologia significa etmologicamente falando coletânea de flores, o termo remete a ideia de escolha, coleção.” E para mim esse livro de Vinicius é exatamente isso, uma “coletânea de flores.” Ele divide a antologia em três partes, a primeira é mística e religiosa, a segunda é uma fase de transição e a terceira de tendência esquerdista, onde tem temas como a valorização do trabalho, preconceito de classes e etc… Esta é a que ele vê como definitiva. Não consigo escolher uma como a minha preferida, pois todas são lindas e em todas ele tem muito a nos dizer. A intenção aqui não é fazer uma crítica literária a obra dele, pois acho que acima disso, Vinicius tem que ser sentido, apreciado como um bom vinho.

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Existe entre mim e ele, uma mágica que não sei bem explicar, por diversas vezes, peguei algum poema desconhecido nas mãos, que ao ler, me fez explodir de satisfação e encantada com tamanha beleza, quando ia ler o nome do autor, lá estava ele Vinicius de Moraes. Hoje, antes mesmo de ler o nome do autor, já sei que quando um poema faz isso comigo, quem assina embaixo é ele.

Para mim Vinicius é um dos maiores poetas de todos os tempos e sua obra vai se perpetuar como tem acontecido até agora. Abaixo encontramos alguns trechos de poemas desse livro, que eu acho que transcendem bem a beleza de seu trabalho.

“De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto. ”

 Soneto de separação

“Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.”

 Soneto de fidelidade

“Amo-te afim, de um calmo amor prestante,
E te amo além, presente na saudade.
Amo-te, enfim, com grande liberdade
Dentro da eternidade e a cada instante. ”

 Soneto de amor total

Pensem nas crianças
Mudas telepáticas
Pensem nas meninas
Cegas inexatas
Pensem nas mulheres
Rotas alteradas
Pensem nas feridas
Como rosas cálidas
Mas oh não se esqueçam
Da rosa da rosa
Da rosa de Hiroxima
A rosa hereditária
A rosa radioativa
Estúpida e inválida
A rosa com cirrose
A antirrosa atômica
Sem cor sem perfume
Sem rosa sem nada

A rosa de Hiroxima

De fato, como podia
Um operário em construção
Compreender por que um tijolo
Valia mais do que um pão?
Tijolos ele empilhava
Com pá, cimento e esquadria
Quanto ao pão, ele o comia…
Mas fosse comer tijolo!
E assim o operário ia
Com suor e com cimento
Erguendo uma casa aqui
Adiante um apartamento
Além uma igreja, à frente
Um quartel e uma prisão:
Prisão de que sofreria
Não fosse, eventualmente
Um operário em construção.

O operário em construção

Livro Editora José Olympio